terça-feira, 2 de agosto de 2016

Vida fria e café quente.


O dia amanheceu quente. Acordei mas fui incapaz de abrir os olhos, tentei me desenroscar do edredom de coraçõezinhos coloridos que só não era mais velho que meu pijama. Ambos são herança da partilha que aconteceu após meu primeiro, de dois, divórcios.
Levei os móveis da sala, do quarto, os eletrodomésticos da cozinha e até os detalhares. Deixei para trás um ar condicionado, um computador, o dvd quebrado e um filho. Depois me arrependi e pensei que deveria ter levado o filho também, mas já era tarde, eu me tornaria a casa de veraneio do garoto.
Até hoje antes de dormir ou quando acordo e fico inerte na cama ainda penso no divórcio e nas coisas que eu poderia ter feito ou dito no dia em que ele bateu a porta na minha casa. Peguei dez anos da minha vida, fiz uma bolotinha gorducha, me posicionei, mirei bem e acertei em cheio na lata do lixo. O que acho engraçado é que na época da escola eu não fui capaz de fazer isso com as folhas do meu caderno, mas se tratando da minha vida, não há quem me supere.
Abro os olhos e penso em parar com auto piedade e levantar da cama. Olho em volta procurando o copo verde de plástico que deveria estar cheio de água, mas não encontro. É justamente quando acordo de ressaca, e mais preciso dele, que ele não está lá e então penso em deixá-lo ao lado da cama antes de sair de casa, mas nunca cheguei a fazer isso. Nos meses que seguiriam aquele dia os copos se acumulariam ao redor da cama, os copos dele e os meus, mas eu não tinha como saber disso e nem aceitaria a ideia de que eu faria isso para alimentar a lembrança de que na noite anterior ele havia estado lá.
Me sento na cama procurando com os pés descalços os meus chinelos de lacinhos vermelhos , sinto o chão frio e aliviante para o calor, mas eles também não estão lá. Minhas coisas nunca estão no lugar em que eu preciso, então me lembro da teoria adolescente dos gnomos, imagino um homenzinho barbudo com meus chinelos em uma das mãos e com a outra cobrindo a boca pequena, de lábios gordinhos rindo da minha procura. Desejei que aquilo fosse verdade por que seria bem mais interessante do que chegar na sala e avistar os chinelos embaixo da mesinha de centro, infelizmente foi exatamente o que aconteceu, lá estavam eles.
Fui até a cozinha tentando me lembrar de onde estaria a cafeteira, decidi que naquele dia eu mesma faria meu café ao invés de chegar sonolenta no trabalho perguntando se ele já havia sido feito por alguém. Fui arrastando os chinelos no chão marcado pela sola dos sapatos das visitas que havia recebido no dia anterior, ignorei a possibilidade de limpá-lo, faria isso quando fosse receber novas visitas.
Acendo um cigarro e o botão vermelho da cafeteira se ilumina, aquele barulhinho de sucção da água inicia e eu começo a achar que já está demorando demais. Só tenho uma máquina dessas em casa por que ganhei de presente de uma tia. Acho o cúmulo da preguiça mas a dona de casa exemplar que preparava café fresquinho as seis da manhã, com coador de pano e preenchia a casa com um perfume matinal inconfundível, já não existe a muito tempo.
Encho uma caneca dupla mas só tomo meia e engulo três comprimidos, um anticoncepcional, um moderador de humor e um antidepressivo, compraria o analgésico no caminho para o trabalho, então o telefone toca.
Me esqueci completamente que havia combinado com alguns amigos de ir a um churrasco a noite, na verdade eu nem queria ir. Que diferença faço eu numa sexta à noite em um lugar onde eu não quero estar? Me lembro de como haviam sido os encontros anteriores que tive com as pessoas que estariam lá e um calafrio negativista percorre meu corpo, mas eu iria.
Já havia planejado chegar bem cedo para não ter que ficar cumprimentando as pessoas e ficaria em uma mesa pequena e escondida com uma ou duas amigas, bebendo e fumando, então iria para casa bêbada o quanto sair cedo me permitisse estar.
Acho que isso já está acontecendo a tempo demais.

terça-feira, 19 de julho de 2016

Rotina



Tenho pena daqueles que não conseguem ver beleza na rotina. Que não sentem prazer em acordar todos os dias no mesmo quarto, com o mesmo cheiro e que não se espreguiçam sempre do mesmo jeito ou que não colocam como toque no celular uma música que adoram e escutam quase todo dia.
Lamento por aqueles que não querem dar um beijo de despedida sempre na mesma pessoa, que não ligam todo fim de semana para avó para escutar as mesmas histórias sobre as mesmas tias, que não frequentam toda quarta o mesmo happyhour, que não desabafam sempre com os mesmos amigos. Que não viajam todo ano, pelo menos uma vez, para mesma praia ou para o mesmo sítio para uma festa de família.
Pessoas que não são reconhecidas pelo perfume ou pelo jeito de prender o cabelo. Acho triste pessoas que não querem fazer sempre o mesmo caminho para o trabalho e que não notam que as coisas mudam pelo caminho todo dia.
Sinto muito por aqueles que não comem sempre o mesmo chocolate, que não tomam sempre o mesmo remédio para dor de cabeça, que não pedem sempre o mesmo prato no restaurante preferido por que quem não gosta de rotina nem tem um restaurante preferido.....é tão triste negar o favoritismo que se pode ter pelas coisas. Não ter rotina é como aceitar que qualquer coisa serve, você não escolheu aquilo, não escolhe nada para si, deixa ao acaso. Quanta bobagem querer mudar tudo todo dia!
Bom é curtir o feijão da sua mãe no almoço e anoite ir ao seu restaurante favorito com o namorado. Uma coisa que você já conhece também pode te surpreender, isso é que é viver de verdade. Não existe rotina mais chata do que viver sem rotina!

quarta-feira, 6 de julho de 2016

O que eu queria




Eu queria fazer canção, tocar violão

Escorregar pro teu colo pelo corrimão

Eu queria um presente,

mão e boca dormentes,

unha vermelha e batom no dente

Eu queria e você?

Queria saber,

Como é que se faz um bichinho de papel machê

Eu queria escrever, queria falar de amor pra você

Queria cueca e meia suja no bidê

Não sou boa em perder

Nem em me mexer

Cozinho meia boca

Sempre quero saber o por que

Eu não sou grande coisa

Mas sou boa em dar e tomar amor de você

terça-feira, 28 de maio de 2013

Para os que não se importam




E eu vou me apaixonar de novo

Te chamar pra desperdiçar o tempo comigo

Fazer de você meu doido preferido

Fazer de você um amor de domingo

Eu digo que tenho pouco tempo

E na verdade, às vezes, acho que tenho tempo demais

Por exemplo, quando permito que você tire a minha paz o tempo tanto faz

Eu sinto muito por mentir

Sinto tanto, tanto por não permitir

que você se aproxime

Eu escrevo poesia inspirada em gente que não existe

E mostro pra gente que não se importa

Não tenho métrica, não faço sentido

Tenho alma que preenche e derrama o profano

Tenho cinco de você e não te dou nenhuma de mim

Tenho duzentos olhos e não vejo você

Falo trezentas línguas, mas você não entende nenhuma

Eu gosto mais de você do que vc de mim

Não adianta me dizerem pra mudar

Sempre foi assim

quarta-feira, 8 de maio de 2013

Minhas gotinhas nas flores do seu quintal




Eu guardei um fiozinho de esperança para quando tudo voltasse ao começo. Cada memória embriagada e desfigurada eu preservei e mantive imaculada para que nenhum mal pudesse me invadir. Eu já quis tanto ser feliz, quis tanto que fingi profundamente, fingi tanto amor que acreditei. Acreditei tanto que amei. E no fim descobri que amei muito menos do que acreditava amar. Eu não sou boa em sutilezas e preferi logo escancarar meu coração partido então você veio com um fio de luz costurar os pedaços que eu achei que havia perdido. Me mantive petrificada é gélida com a sua ausência mas diante de qualquer sinal seu escorri por entre as vielas da cidade que construí para você habitar no meu mundo. Espero que feche bem as mãos, que recolha minhas gotas e preserve minha pureza por que eu lamentaria profundamente evaporar e chover sem molhar o seu quintal.

segunda-feira, 6 de maio de 2013

Aquela crônica do apartamento




Ela escancarou a porta do apartamento, jogou a bolsa em cima da mesa de centro, derrubando algumas revistas e cruzou a sala gritando : Por que eu não consigo falar com você?Ela havia ligado repetidas vezes e ele não atendera, ela morava a alguns quarteirões e planejou: chego lá antes da vadiazinha sair. A empregada surge assustada na porta da sala de jantar e sorri timidamente dizendo: Bom dia dona Mari. Andando de um lado para outro, meio perdida, meio irritada ela responde :Só se for pra você Julia, só se for pra você! Ela estava atrás do homem que escolheu para passar o resto da vida amando. Ela acredita que pode escolher quem vai amar e por quanto tempo. Acredita que se rezar um anjo vem no meio da noite abençoá-la e acredita que o dia mais feliz de sua vida será quando entrar em uma igreja vestindo um básico vestido de noiva na cor creme, isso por que ela também acredita que o branco é démodé. Ela acredita que os documentários do Discovery Chanel são realistas e acredita que ir ao cinema em um domingo a tarde é programa para casais desesperados. Ela pinta as unhas de cores claras por que acredita que mulheres, que pintam as unhas de cores escuras, não passam a menor credibilidade. Ela não liga a máquina de lavar roupas à noite e nem no domingo à tarde por que acredita que incomoda os vizinhos e acredita que todos os moradores do prédio deveriam fazer a mesma coisa. Ela tem certeza que o que viu no meio da noite, no canto do quarto, quando tinha cinco anos, era o fantasma de sua bisavó e acredita que se tivesse conversado com ela teria economizado anos de terapia. Ela acredita que terapia funciona e todos os seres humanos deveriam freqüentar sessões semanalmente. Ela acredita em todo tipo de coisa e em todas as pessoas, é até chamada de ingênua pelos amigos. Ela não entende piadas sujas e tem vergonha de dizer que está chegando aos trinta e ainda é noiva, mas exibi orgulhosa a aliança cravejada de brilhantes que ganhou no dia do aniversário, quando ele fez o pedido. Pois é, vocês acreditam? Ele fez o pedido sim! O empresário paulistano, que vai religiosamente à academia todos os dias, que joga tênis aos domingos e que só faz happy hour as sextas enquanto espera ela sair da sessão de terapia ou do salão de beleza. Ela acreditava que havia conquistado o melhor partido das colunas sociais e que qualquer uma das suas amigas solteironas mataria para se casar com um homem como ele. Ela achava que ele era o homem mais lindo e inteligente que havia no planeta, era como se ela tivesse conquistado o único homem da face da terra e de certa forma, ele era mesmo, ele era o único homem que serviria para ela. Diante de tanta devoção como ele ousaria? Como ele pôde se recusar a dormir no apartamento dela no sábado e ousava não atender o celular no domingo de manhã? Era demais para ela, ela não suportaria. Tinha que ir até lá e dizer umas boas verdades na cara do homem mais maravilhoso que havia conhecido em sua vida. Por que e se ele não fosse tão maravilhoso assim? E se o casamento, a casa nova e os filhos lindos que teriam fosse uma armadilha? E se a menina que saiu do elevador quando ela entrou transtornada no hall do prédio estivesse saindo do apartamento dele? Ela era tão bonita e uns dez anos mais jovem. E se ao invés de ser a noiva dele ela fosse só uma mulher Barbie noiva, dessas que os caras perdem uma e é só comprar outra depois?Será que ela havia sido comprada?Ela se vendeu e não percebeu? Onde ele estava? Ela batia o salto do sapato no assoalho enquanto a história dos dois passava diante de seus olhos como um filme, ela não acreditava mais, não queria mais. Quando o visse diria “Você não vai me enganar!”, ela se rebelaria, faria a revolução naquele relacionamento. Ela segura a maçaneta gelada da porta do quarto, fecha os olhos e toma coragem, abre rapidamente e constata, ele não está na cama. A coitada da empregada tenta falar alguma coisa, mas ela não quer ouvir. Ele havia dormido fora, ela tinha certeza. Ele não estava lá e havia tirado dela o direito de gritar e cobrar explicações. Ele a privou de ser doida a única vez que ela quis ser doida na vida. Ela se senta no sofá da sala e chora, chora daquele jeito que só ousa chorar entre as quatro paredes do consultório do terapeuta. Então um barulho interrompe seu drama dolorido de mulher traída. Uma porta se abrindo e a voz de Julia, muito nervosa explicando alguma coisa que ela não entendia. Levanta-se e vai até a sala de jantar. Ele está com a roupa da academia, mas não está suado. Ela se aproxima e pergunta: Por que você não me atendeu? Onde você dormiu. Julia corta a conversa: Eu tentei dizer que o senhor dormiu aqui mas ela não me deixa falar. Ele ri, gargalha e abraça forte o corpo pequeno e magrinho da única mulher que serviria para ele e então responde: Eu só estava no banho. O celular tocou, eu escutei, não atendi por que estava no banho. Nada mais importava por que olhando para ele sem a nuvem de loucura e medo diante dos olhos ela enxerga: Ele só estava no banho.

quarta-feira, 17 de abril de 2013

Ainda tenho medo de você




Ainda que você provoque uma bagunça enorme todas as vezes que aparece, você ainda é a saudade mais profunda que eu guardo e te perder continua sendo o principal resultado dos meus excessos. Desisti de me justificar e me culpar, desisti até de você. Joguei tudo fora! Até a florzinha de canudo que você me deu e disse “Tó, pra você não dizer que eu nunca te dei nada!” Guardar aquilo se fez o maior simbolo do meu sofrimento. Joguei fora, mas o sofrimento não foi junto, ele ficou e com ele uma saudade enorme da florzinha.. Joguei a pazinha do sorvete no lixo também, aquela que usei a primeira vez que eu te vi e tomamos sorvete de caipirinha, joguei a 3x4 que guardei anos depois de você ter ido embora, a camiseta que você tirou e me deu antes de viajar, só porque eu queria dormir sentindo seu cheiro. Eu tive que ter a maior coragem do mundo pra jogar o maior amor do mundo no lixo. Mas joguei e fiquei morrendo de medo de ser uma pessoa centrada por que você dizia que minhas maluquices te faziam me amar. Até hoje eu morro de medo de você, de te encontrar na fila do cinema ou em algum bar na madrugada. Até hoje eu tenho medo de te ver e pular no seu pescoço feito uma maluca, de te beijar e esquecer meu nome..Até hoje eu tenho medo de perguntar o nome de alguém e ouvir o teu. Eu morro de medo do bem que você me fez e de todo o mal que você ainda pode me fazer.